KPIs de TI: os indicadores que a diretoria realmente cobra
A diretoria cobra basicamente seis coisas da TI, mesmo quando usa outras palavras: se o sistema fica de pé, quanto tempo demora para alguém responder, quanto tempo demora para o problema acabar, se o mesmo problema volta, se o que foi contratado está sendo cumprido e quanto isso tudo custa por pessoa. Traduzidos, esses são os KPIs de disponibilidade, tempo de resposta, tempo de resolução, taxa de reincidência, aderência a SLA e custo por usuário. Nenhum deles é técnico por natureza, e todos podem ser maquiados, o que torna a leitura correta tão importante quanto a coleta.
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Por que o relatório fica verde e a diretoria continua insatisfeita
Existe uma cena que se repete em média empresa. A TI apresenta o relatório mensal, todos os indicadores estão dentro da meta, e o diretor comercial abre a reunião dizendo que a equipe dele passou a semana sem conseguir trabalhar. Os dois estão falando a verdade.
Isso acontece porque a maioria dos relatórios de TI mede esforço, não resultado. Número de chamados abertos, número de chamados fechados, quantidade de máquinas atendidas. São dados sobre a atividade da TI, não sobre a experiência de quem depende dela. Um relatório com trezentos chamados fechados pode significar equipe produtiva ou ambiente que quebra o tempo todo, e o número sozinho não distingue os dois casos.
Um bom conjunto de KPIs responde a três perguntas de negócio, nessa ordem: a operação parou? quando alguém precisou de ajuda, recebeu em tempo aceitável? estamos pagando um preço razoável por isso? Tudo o que não responde a uma dessas três perguntas é informação de apoio, não indicador de diretoria.
Os seis indicadores, em linguagem de negócio
1. Disponibilidade
O que é: o percentual do tempo em que um sistema ficou operante em relação ao tempo total do período.
O que revela: é o indicador mais próximo da percepção do dono. Se o ERP fica fora do ar, ninguém fatura, e nenhum outro número do relatório importa naquele dia.
A matemática ajuda a tornar a conversa concreta. Um ano tem 525.600 minutos. Uma meta de 99,9% admite 0,1% de indisponibilidade, ou seja, 525,6 minutos por ano, o que dá 8,76 horas. Uma meta de 99% admite dez vezes mais: 5.256 minutos por ano, cerca de 87,6 horas, ou mais de três dias e meio. A diferença entre 99% e 99,9% parece pequena no papel e é enorme na operação. O detalhamento dessa conta está em uptime 99,9%: o que significa na prática.
Como pode ser manipulado: de três jeitos clássicos. Primeiro, medindo a disponibilidade do servidor em vez da do serviço: a máquina responde ao ping, mas o sistema não deixa emitir nota, e o relatório registra tudo verde. Segundo, excluindo do cálculo as paradas programadas, o que é legítimo se combinado, mas vira maquiagem quando a parada programada acontece no horário de expediente. Terceiro, calculando a média de todos os sistemas juntos: dez sistemas irrelevantes com 100% compensam o ERP com 96% e produzem um número bonito e inútil.
Como cobrar direito: peça a disponibilidade por sistema crítico, medida do ponto de vista do usuário, com as paradas programadas listadas à parte, e não diluída em média geral.
2. Tempo de resposta
O que é: o tempo entre a abertura do chamado e o primeiro atendimento humano de fato, aquele em que alguém assume o problema.
O que revela: capacidade de absorção da equipe e organização da fila. É o indicador que mais afeta a percepção de qualidade, porque a sensação de abandono começa antes da solução.
Como pode ser manipulado: este é o campeão de maquiagem. Uma resposta automática de "recebemos seu chamado" contada como primeiro atendimento zera o indicador sem atender ninguém. Também acontece de o técnico assumir o chamado no sistema para parar o relógio e só olhar o problema horas depois.
Como cobrar direito: defina resposta como contato humano com conteúdo, não como mudança de status no sistema, e valide por amostragem, conversando com quem abriu o chamado.
3. Tempo de resolução
O que é: o tempo entre a abertura e a solução efetiva, com o usuário conseguindo voltar a trabalhar.
O que revela: competência técnica, qualidade da documentação e, principalmente, se a empresa tem os acessos e os contratos de suporte necessários para resolver sem depender de improviso.
Como pode ser manipulado: pelo uso abusivo do status de espera. O chamado fica "aguardando usuário" ou "aguardando fornecedor" e o relógio para, então um problema que levou cinco dias aparece no relatório como quatro horas de trabalho. Outra prática comum é fechar o chamado com paliativo e abrir outro quando o problema volta, o que divide um caso longo em vários curtos.
Como cobrar direito: acompanhe também o tempo total decorrido, do lado do calendário, e não só o tempo útil descontado. E peça a distribuição em vez da média: a média esconde os casos extremos, que são exatamente os que geram a insatisfação. Saber que metade dos chamados fecha rápido não consola quem ficou seis dias parado.
4. Taxa de reincidência
O que é: o percentual de chamados que tratam de um problema que já tinha sido reportado antes, no mesmo equipamento, no mesmo sistema ou pelo mesmo motivo.
O que revela: se a TI está resolvendo causa ou apagando incêndio. É o melhor indicador de qualidade real que existe, e é o menos apresentado espontaneamente por fornecedor nenhum.
Reincidência alta com tempo de resolução baixo é o pior cenário possível, e o mais fácil de confundir com sucesso. Significa que a equipe é rápida a aplicar o mesmo remendo várias vezes. Se esse padrão descreve a sua empresa, vale a leitura de sua TI é estratégica ou só apaga incêndios?.
Como pode ser manipulado: por classificação. Basta abrir cada ocorrência como um chamado novo, com categoria diferente, e a reincidência desaparece do relatório. Também acontece de a categoria "outros" concentrar tudo o que é inconveniente.
Como cobrar direito: peça a lista dos cinco problemas mais recorrentes do período, com a causa raiz identificada e a ação tomada para cada um. Se essa lista não existe, o indicador não está sendo medido de verdade.
5. Aderência a SLA
O que é: o percentual de chamados atendidos e resolvidos dentro dos prazos acordados em contrato, geralmente separados por nível de severidade.
O que revela: se o contrato está sendo cumprido. Não é a mesma coisa que qualidade: um contrato mal escrito pode ser cumprido com folga enquanto a operação sofre.
Como pode ser manipulado: pela classificação de severidade, que costuma ficar na mão de quem será medido por ela. Se todo chamado entra como severidade baixa, o prazo é folgado e a aderência fica ótima. Também aparece na exclusão de chamados do cálculo por serem "fora de escopo", categoria que cresce misteriosamente nos meses ruins.
Como cobrar direito: fixe em contrato quem define a severidade e com base em quais critérios objetivos, e peça o número absoluto de chamados fora do SLA, não só o percentual. Vinte falhas em quinhentos chamados viram um percentual confortável e continuam sendo vinte áreas paradas. O que exigir em contrato está detalhado em SLA de TI: o que exigir do seu provedor de suporte.
6. Custo por usuário
O que é: o custo total de TI do período dividido pelo número de usuários atendidos.
O que revela: permite comparar a sua TI com ela mesma ao longo do tempo e sustentar decisões de orçamento. É o indicador que a diretoria financeira entende sem tradução.
Como pode ser manipulado: pela composição do custo. Deixar de fora licenças, links de internet, projetos, horas da equipe interna ou a depreciação dos equipamentos reduz o número sem reduzir a despesa. E há a manipulação mais perigosa: cortar manutenção, monitoramento e renovação de equipamento derruba o custo por usuário no trimestre e cria uma dívida técnica que aparece meses depois, quando algo para.
Como cobrar direito: defina uma vez o que entra na conta e nunca mude a fórmula sem avisar. Leia o número sempre ao lado dos indicadores de disponibilidade e reincidência, porque custo caindo com qualidade caindo não é economia, é adiamento. Os componentes visíveis e invisíveis dessa conta estão em TCO de TI: como calcular o custo total.
Resumo em tabela
| Indicador | Pergunta de negócio que responde | Maquiagem mais comum |
|---|---|---|
| Disponibilidade | O sistema que sustenta a receita ficou de pé? | Medir o servidor em vez do serviço e diluir tudo em média geral |
| Tempo de resposta | Quando alguém pediu ajuda, foi atendido rápido? | Contar resposta automática ou mudança de status como atendimento |
| Tempo de resolução | O problema acabou em tempo aceitável? | Abuso do status de espera e fechamento com paliativo |
| Taxa de reincidência | Estamos resolvendo a causa ou repetindo o remendo? | Reclassificar cada retorno como chamado novo |
| Aderência a SLA | O que foi contratado está sendo cumprido? | Rebaixar a severidade e excluir chamados por escopo |
| Custo por usuário | Estamos pagando um preço razoável por isso? | Tirar itens da conta e cortar manutenção para melhorar o trimestre |
Como definir a meta sem inventar número
Uma pergunta aparece sempre: qual deveria ser o valor de cada indicador? A resposta honesta é que não existe número universal, e desconfie de quem apresenta um como verdade de mercado. A meta correta depende do que a sua operação suporta, e ela se constrói em quatro passos:
- Meça por um período sem meta nenhuma. Você precisa saber onde está antes de decidir onde quer chegar. Alguns meses de dados limpos valem mais que qualquer referência externa.
- Pergunte ao negócio quanto dói. Para cada sistema crítico, pergunte ao gestor da área quanto tempo de parada ele consegue absorver antes de o dia ser perdido. A meta de disponibilidade nasce dessa resposta, não de uma tabela.
- Verifique o custo de cada degrau. Subir um nível de disponibilidade exige redundância, monitoramento e, muitas vezes, plantão. Se o degrau custa mais do que a parada que ele evita, a meta está errada.
- Revise a cada ciclo. Meta é acordo, não dogma. Se ela nunca é atingida, ou é sempre superada com folga, ela não está medindo nada.
Um cuidado adicional: adote poucas metas. Relatório com trinta indicadores não é rigor, é ruído, e ninguém acompanha. Seis bem escolhidos, revisados todo mês, mudam mais a operação que um painel completo que ninguém abre.
O relatório mensal de uma página
Se o relatório precisa de apresentação de quarenta minutos para ser entendido, ele falhou. O formato que funciona com diretoria cabe em uma página e tem cinco blocos:
- Os seis números do mês, cada um comparado com o mês anterior e com a meta acordada.
- Os incidentes relevantes, com duração, o que parou e o que foi feito para não repetir.
- Os cinco problemas mais recorrentes, com causa raiz e ação.
- Riscos conhecidos, incluindo o que está fora de suporte do fabricante e o que ainda não tem backup testado.
- Decisões que dependem da diretoria, com o custo de agir e o risco de não agir. Este bloco é o que transforma o relatório em ferramenta de gestão.
Um detalhe de forma que faz diferença: escreva os incidentes em termos de negócio. Não é "indisponibilidade do serviço de banco de dados por 47 minutos", é "o faturamento ficou parado por 47 minutos na manhã do dia 12, e a fila de pedidos represados levou o resto da manhã para ser absorvida". A diretoria não precisa aprender o vocabulário da TI para decidir orçamento.
Perguntas frequentes
Quantos KPIs de TI uma média empresa deve acompanhar?
Poucos e sempre os mesmos. Os seis deste artigo cobrem as três perguntas que a diretoria faz de verdade. Indicadores adicionais podem existir no nível operacional, para uso da própria equipe de TI, mas não devem subir para a reunião de diretoria. Consistência vale mais que quantidade: mudar a lista todo trimestre impede qualquer comparação ao longo do tempo.
Meu fornecedor apresenta os números. Como sei se são reais?
Peça três coisas. A primeira é acesso direto à ferramenta que gera os dados, mesmo que só de leitura, porque o número que só existe no slide não pode ser conferido. A segunda é a metodologia por escrito: o que conta como resposta, o que para o relógio, o que entra e o que sai do cálculo. A terceira é a lista dos chamados fora do SLA no período, com número e detalhe, e não apenas o percentual. Fornecedor que resiste às três perguntas está dizendo algo.
Vale a pena medir satisfação do usuário junto com esses indicadores?
Vale, e ela funciona como contraprova dos demais. Quando os indicadores técnicos estão dentro da meta e a satisfação está baixa, quase sempre existe maquiagem em algum ponto da coleta ou o contrato está medindo a coisa errada. Uma pesquisa curta, disparada no fechamento do chamado, já é suficiente para revelar essa divergência.
Como a BS IT Solutions trabalha esses números
A BS IT Solutions opera gestão de TI, NOC 24x7 e serviços gerenciados para médias empresas em São Paulo e região metropolitana com relatório mensal orientado a esses indicadores, com metodologia declarada e acesso do cliente à origem dos dados. Medir para mostrar serviço não interessa a ninguém: medir serve para decidir onde investir e onde parar de gastar.
Se você quer estruturar os indicadores da sua TI, ou quer uma leitura independente dos números que o seu fornecedor atual apresenta, fale com um especialista da BS IT Solutions.




